RELATO DE CASO

CASE REPORT


Tratamento de doença de Peyronie com uso de ondas de choque lineares (Renova®)

Peyronie’s disease treated with linear shockwave therapy (Renova®)

  • Recebido: 03 de Fevereiro de 2017
  • Aprovado: 23 de Março de 2017
  • Publicado: 01 de Fevereiro de 2018
  • Atualidades Médicas - Volume 1 - Edição nº 1 - Ano 2017 - Maio, Junho
  • Páginas: 25-28
  • DOI:

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Resumo

O uso de ondas de choque lineares de baixa intensidade está se tornando uma alternativa para o tratamento de casos de disfunção erétil de origem vascular, notadamente pacientes diabéticos, tabagistas ou com alterações dos lípides sanguíneos. A doença de Peyronie já foi tratada com ondas de choque de máquinas adaptadas de procedimentos para litíase renal com resultados controversos. Esse é um relato de caso de um paciente com uma placa peniana bastante evidente que se submeteu a um tratamento de disfunção erétil por ondas de choque e apresentou regressão evidente e importante da placa peniana.

Summary

A diabetic patient that do not respond for oral erectile dysfunction therapy is treated for erectile dysfuntion using the new tecnology of linear shocwave therapy in a standard protocol for this case and found a symptomless Peyronies Disease with a huge penile dorsal plaque that almost disappear after the treatment improving his erections and sexual satisfaction.

Unitermos/Uniterms

  • Disfunção erétil
  • Doença de Peyronie
  • Ondas de choque
  • Peyronie disease
  • Shockwave
  • Erectile dysfunction

INTRODUÇÃO

A Doença de Peyronie foi inicialmente descrita por François Gigot de la Peyronie em 1743 como uma placa endurecida no corpo do pênis. Se apresenta com uma grande variedade de deformações do pênis, indo desde pequenas curvaturas que não atrapalham o ato sexual até curvaturas muito angulosas e disformes levando a impossibilidade de se manter o ato sexual. A incidência é estimada em 1% mas acredita-se que essa incidência está se elevando atingindo de 4 a 5% dos homens (Gelbard et al, 1990; Carson et al, 1999). Felizmente a maioria dos pacientes não necessitam de intervenção cirúrgica, mas o procedimento, apesar de paliativo, tem sua indicação.

Questiona-se se o uso de medicamentos para tratamento de disfunção erétil ou injeções intra-cavernosas podem estar associados ao aumento na incidência dessa patologia, mas não se tem dados comprovatórios até a presente data.

Várias linhas de tratamento já foram propostas para o tratamento dessa entidade como o uso de vitamina E, Aminobenzoato de Potássio (Potaba), terfenadina, fenoxifenadina, Tamoxifen, colchicina, corticosteroides aplicados diretamente na placa, verapamil injetado na lesão ou na forma de pomadas, colagenase e interferon. Também se tentou o uso de radioterapia, uso de bomba de vácuo e ondas de choque.

Particularmente as ondas de choque foram inicialmente propostas em 1989 (Lebret et al, 2002), mas devido às diferenças entre as máquinas de litotripsia e a dificuldade técnica para se posicionar os pacientes nas máquinas, os trabalhos não apresentam uma uniformidade na conduta com resultados diversos, mas um caso controle mostrou resultados favoráveis (Hauck et al, 2000). A última indicação seria cirúrgica, com várias técnicas diferentes de abordagem do problema descritas.

CASO CLÍNICO

A.C.P, 67 anos, queixa de disfunção erétil em uso de Sildenafila há 4 anos, vem há 1 ano apresentando piora do quadro de disfunção erétil com dificuldade para ter e manter as ereções mesmo com o uso de medicamentos, além de desenvolver um quadro de ejaculação precoce pois não consegue levar a relação até o final se não ejacular rápido. Mantém atividades físicas regulares, nega uso de injeção intra-cavernosa ou uso de reposição hormonal. Nega dor ou curvatura no corpo do pênis. Refere diabetes mellitus há 10 anos em uso de Metformina, ex-tabagista de 1 maço ao dia, parou há 40 anos. Realizado questionário IIEF-5 com resultado final de 13 pontos. Sem antecedentes familiares importantes. Ao se proceder o exame físico não foi encontrado nada digno de nota no exame físico geral, mostrando-se hígido.

O exame específico da genitália demonstrou uma haste peniana sem deformidades, corpos cavernosos flácidos, com baixo enchimento, cruras também com pouco enchimento a palpação. Na base do pênis, em sua porção dorsal, próximo a inserção na púbis notou-se uma placa ocupando cerca de 1/3 da circunferência dorsal do pênis com extensão para a região infra-pubiana, não se palpando o limite interno da lesão. A extensão palpável na região dorsal do pênis extendia-se por cerca de 2 cm na base exposta do pênis. Os exames laboratoriais mostravam uma Glicemia de Jejum de 167 mg/dl, Hemoglobina Glicada de 10%, Testosterona Total de 223 ng/dl e Livre de 4,13 ng/dl e PSA de 0,28 ng/ml.

Foi indicado melhor controle do diabetes, uso de reposição hormonal com gel transdérmico de testosterona (Androgel ®) e uso de Tadalafila diária e sob demanda em conjunto ao tratamento de disfunção erétil por ondas de choque lineares através de aparelho Renova ® (Direx ®) no protocolo orientado pelo fabricante de 1 sessão semanal por um período de 4 semanas com o disparo de 3600 ondas em quatro quadrantes (900 disparos por quadrante) – crura direita, crura esquerda, corpo cavernoso direito e corpo cavernoso esquerdo.

Ao retornar para a segunda sessão o paciente referiu que conseguiu manter relação notando o pênis mais rígido e talvez pelo aumento na rigidez ele percebeu uma curvatura dorsal do membro, indolor. Iniciou algumas ereções matinais. Ao retornar para a terceira aplicação de ondas de choque o paciente referiu melhora da libido e disposição geral, melhora das ereções, da rigidez do membro, aumento do volume do pênis e da glande, com ereções mais prolongadas. Refere que a esposa havia notado diferença substancial nas ereções. Ao exame físico os corpos cavernosos mostravam-se mais túrgidos, com melhora do enchimento bem como das cruras. As veias dorsais do pênis mostravam-se mais cheias, denotando melhor retorno venoso geral. Não houve mudança na placa dorsal do pênis. O retorno para a quarta aplicação de ondas de choque lineares não mostrou diferença significativa em relação a terceira aplicação, a não ser que o paciente referia ereções mais prolongadas e de melhor qualidade. Foi solicitado ao paciente retorno trimestral e ao retornar após 4 meses do término do tratamento por ondas de choque o paciente havia parado o uso de testosterona transdérmica por conta própria após 3 meses de uso, e o uso de Tadalafila diária, mantendo o uso sob demanda de Sildenafila ou Tadalafila sem preferência por um medicamento ou outro.

Refere manutenção da qualidade das ereções desde o término do tratamento e melhora da curvatura peniana. Mantendo ereções matinais mas não noturnas. Como todos os pacientes submetidos ao procedimento de ondas de choque lineares não apresentou nenhum efeito colateral indesejável. Nega dor local, dor testicular, hematúria, hematospermia, uretrorragia ou qualquer outro sinal patológico. Realizado novo questionário IIEF-5 após 4 meses do término do tratamento com resultado final de 24 pontos. Ao examiná-lo no retorno o paciente apresentava manutenção do quadro de enchimento dos corpos cavernosos, cruras e glande, semelhantes a quando terminou o tratamento. No entanto, a placa dorsal da base do pênis praticamente desapareceu, não se palpando mais a placa mesmo na região subpubiana, ficando um resquício de calcificação na região dorsal médio-peniana medindo não mais do que 4 mm de largura por 6 mm de extensão na área exposta da raiz do pênis. Não se notava nenhuma deformidade na haste peniana.

DISCUSSÃO

A terapia por ondas de choque lineares tem se mostrado uma alternativa viável no tratamento da causa vascular de disfunção erétil de pacientes com antecedentes de diabetes, tabagismo, dislipidemias ou que não apresentam mais resposta adequada aos medicamentos disponíveis para melhora das ereções, permitindo que esses pacientes retornem a responder às terapias medicamentosas ou venham a ter ereções espontâneas sem a necessidade de medicação (Tom Lue et al, 2016). No entanto outras patologias como a Doença de Peyronie em que já foi estudado o impacto das ondas de choque no tratamento dessa patologia apresentavam resultados inconclusivos ou incongruentes, talvez por causa das diferenças entre as máquinas, intensidade das ondas, dificuldade de posicionamento em uma máquina que não foi projetada para esse tipo de tratamento, dependência do operador da máquina ou tudo isso junto, o que dificulta os protocolos específicos para essa abordagem (Butz and Teichert, 1998; Colombo et al, 1999; Gianneo et al, 1999; Lebret et al, 2002; Manikandan et al, 2002; Syntenko, 2004).

Como a máquina Renova® foi especificamente projetada para atingir a genitália masculina de maneira uniforme, com a mesma qualidade e intensidade de onda por toda a estrutura em contato com o transdutor independentemente do operador, parece ser uma alternativa viável para uniformizar protocolos de tratamento de outras patologias como a Doença de Peyronie, além da disfunção erétil para a qual foi originalmente desenvolvida (A.Hind et al, 2013). O resultado dessa descrição de caso foi surpreendente tanto para o médico como para o paciente em questão, pois a indicação do tratamento não foi a placa peniana que não era a queixa do paciente que sequer a tinha notado, mas a disfunção erétil e o objetivo de tratamento da disfunção erétil foi atingido com um bônus no que se relacionava a placa peniana.

CONCLUSÃO

A terapia por ondas de choque lineares está ocupando seu espaço no arsenal terapêutico para o tratamento de disfunção erétil por causas angiogênicas mas existe um vasto campo de utilização dessa nova tecnologia a ser descoberto, tanto no tratamento da Doença de Peyronie, que apesar de não ser algo maligno ou incapacitante é algo extremamente preocupante e desagradável para o paciente, como em outras patologias relacionadas a microcirculação que podem se beneficiar dessa tecnologia. Até a presente data não se conseguiu nenhum tratamento não invasivo realmente eficaz com bons resultados, duradouros e que apresentem baixa morbidade para o tratamento dos pacientes com Doença de Peyronie.

Referências Bibliográficas

Gelbard MK, Dorey F, James K: The natural history of Peyronie’s disease. J Urol 1990; 144:1376-1379.

Carson CC, Jordan GH, Gelbard MK: Peyronie’s disease: New concepts in etiology, diagnosis and treatment. Comtemp Urol 1999; 11; 44-64

Gerald H Jordan MD: Peyronie’s Disease : Campbell-Walsh Urology – ninth edition; Volume 1; 818-838

Low-intensity Extracorporeal Shock Wave Treatment Improves Erectile Function: A Systematic Review and Meta-analysis – Zhihua vLu a,b,v Guiting Lin a, Amanda Reed-Maldonado a, Chunxi Wang b, Yung-Chin Lee c, Tom F. Lue a – European Urology 6856 pg11; May 31, 2016

Line focused shockwave for erectile dysfunction – A different technological approach; A.Hind, O.Saleh, Y. Abu Asbeh; 5th Pan Arab Congresso f Sexual Medicine; Dubai 2013

Notas

Trabalho realizado na clínica Priapus.
Tratamento não invasivo para disfunção erétil, São Paulo.
Rua Urussuí 125 cj 103 – Itaim Bibi CEP 04542-050
www.priapus.com.br

Autor correspondente

Wagner Raiter José - diretoria@priapus.com.br

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