Augusto César Santiago Araújo Júnior 1, Josilda Ferreira Cruz – MsC 1, Mário Augusto Ferreira Cruz 1, Demetrius Silva de Santana 2, Renata Tavares da Silva 1, Karla Freire Rezende – PhD 2, Cristiane Costa da Cunha Oliveira – PhD 3, Sônia Oliveira Lima – PhD 4

1 - Departamento de Medicina da Universidade Tiradentes.
2 - Universidade Federal de Sergipe.
3 - Laboratório de Planejamento e Promoção da Saúde. Instituto de Tecnologia e Pesquisa. Universidade Tiradentes. Aracaju, SE, Brasil.
4 - Departamento de Pós-graduação da Universidade Tiradentes.

Recebido para publicação em 01 de Fevereiro de 2017
Aceito em 12 de Maio de 2017

Atualidades Médicas - Volume 2 - Edição 1 - Ano 2018 - Janeiro, Fevereiro

Páginas: 9-15

DOI:

Unitermos: Excesso de peso, Obesidade, Índice de Massa Corpórea, Epidemiologia, Estudos transversais

Uniterms: Overweight, Obesity, Body Mass Index, Epidemiology, Transversal Studies

© Copyright MRCOM. Todos os direitos reservados.

Resumo

Objetivo: Identificar o perfil clínico e sociodemográfico em adultos com excesso de peso na cidade de Aracaju, Sergipe. Estudo transversal, descritivo tipo survey com abordagem analítica quantitativa. Métodos: Amostra com 690 indivíduosque procuraram de forma aleatóriaquatro centros de referências para aferição de medidas antropométricas entre julho de 2013 a julho de 2014. Foram analisadas as variáveis idade, sexo, renda, escolaridade, comorbidades, circunferência da cintura e IMC. O programa estatístico utilizado foi o SPSS 22.0 e o nível de significância p<0,05. Resultados: Foram avaliadas 494 mulheres (71,59%) e 196 homens (28,40%). Média de idade dos pacientes foi de 39,48 anos e a dos com obesidade foi de 42,38. 52,89% dos indivíduos apresentaram IMC normal, 31,15% sobrepeso, 10,43% obesidade grau I, 4,49% II e 1,01% obesidade grau III. O IMC foi significativamente maior no grupo dos hipertensos (p=0,001), no grupo de menor escolaridade (p=0,004), bem como no de maior renda (p=0,003). A circunferência da cintura apresentou média de 104,94cm em obesos. Conclusão: Observaram-se altas prevalências de excesso de peso nos adultos pesquisados consoante a tendência epidemiológica nacional, o que permite classificar a situação como um problema de saúde pública no município avaliado.

Summary

Objective: This article aims to identify the clinical and sociodemographic profile of overweight adults evaluated through survey and anthropometric measurements in the city of Aracaju, Sergipe. Methods: Descriptive transversal outline survey-type study in a quantitative analytical approach. The sample was 690 individuals who randomly sought four random reference centers in the municipality of Aracaju-SE, in order to have anthropometric measurements taken between July 2013 and July 2014. The following variables have been analyzed: age, gender, income, schooling, comorbidities, waist girth and BMI. The statistical program SPSS 22.0 was chosen and significance level p < 0.05. Results: 494 women (71.59%) and 196 men (28.40) have been analyzed. Their average age was 39.48 years and the same average for obese patients was 42.38 years. 52.89% of patients presented normal BMI, 31.15% were overweight, 10.43% presented level 1 obesity, 4.49% level 2 and 1.01% level 3. The BMI was significantly higher among the hypertensive (p=0.001), among poor schooling (p=0.004) and among higher income (p=0.003). Average waist girth was 104.94cm among the obese portion. Conclusion: Overweight high prevalence in the studied adults consonant with the national epidemiologic tendency were observed, which allows to classify the situation as a public health problem in the evaluated municipality.

INTRODUÇÃO

A obesidade nos dias atuais, em razão da sua magnitude, é considerada a mais importante desordem nutricional nos países desenvolvidos e em desenvolvimento devido ao aumento da sua incidência, o que a fez atingir proporção epidêmica mundial, assumindo, portanto, uma relevante problemática para a saúde pública 1,2.

A obesidade pode ser definida como um agravo de etiologia multifatorial, cuja principal causa se refere a um balanço energético positivo, ou seja, o indivíduo consome mais energia do que gasta o que lhe gera um excesso de gordura corporal sob a forma de tecido adiposo. Diversos trabalhos buscam explicar a complexa etiologia da obesidade e descrevem como suas principais causas os fatores históricos, ecológicos, políticos, sociais, culturais, genéticos, metabólicos e psíquicos1,3.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a utilização do Índice de Massa Corporal (IMC) para o diagnóstico do estado nutricional de grupos populacionais para determinar o sobrepeso e a obesidade4. Por se correlacionar bem à gordura corporal, por sua facilidade de mensuração e por ser uma medida não invasiva e de baixo custo é o indicador mais amplamente usado5. O valor do IMC é obtido a partir do cálculo do peso em quilogramas dividido pela altura em metros ao quadrado. Em adultos, um IMC igual ou superior a 25 kg/m² é caracterizado como sobrepeso, e igual ou superior a 30 kg/m² configura obesidade. O IMC, além de classificar o indivíduo com relação ao peso, também é um indicador de riscos para a saúde e tem relação com várias complicações metabólicas 6,7,8.

Nos dias atuais, o panorama mundial e brasileiro das chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) revela-se um novo desafio para a saúde pública5. Neste grupo de doenças ocupa um lugar de destaque a obesidade que além de ser uma doença em si é fator de risco para as referidas DCNT sendo as cinco principais: doenças cardíacas, acidente vascular encefálico, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes mellitus, o que faz  a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerá-la uma epidemia global atingindo as mais variadas faixas etárias em países desenvolvidos ou em desenvolvimento 8,9,10,11.

O entendimento de como se comporta o excesso de peso e a obesidade no país indica haver uma necessidade de concreta definição de prioridades e estratégias de ações públicas direcionadas para a prevenção e controle desses agravos, com especial destaque para as medidas de educação em saúde e nutrição, em âmbitos regional e nacional assim como em todos os segmentos da sociedade. Desta forma, o presente estudo pretende avaliar o perfil clínico e sociodemográfico de adultos com excesso de peso avaliados através de questionário e medidas antropométricas na cidade de Aracaju-SE e a partir dos resultados encontrados sugerir a adoção de medidas de promoção à saúde e prevenção de agravos.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de delineamento transversal de base populacional, não experimental, descritivo tipo survey, com abordagem analítica quantitativa. A população foi escolhida através de um processo amostral aleatório.

Os dados foram coletados em quatro clínicas de especialidades no município de Aracaju, no período de julho de 2013 a julho de 2014, após aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Tiradentes (CEP), situada em Aracaju - SE, conforme regulamentação editada pela Resolução n. 196/96, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEPE) e permissão da utilização do espaço físico dos serviços privados utilizados.

Para o cálculo da amostra, considerou-se uma prevalência de 21% de obesidade de acordo com o estudo de Gigante et al 12 (1997), considerando um erro de 5%. Baseado na fórmula de Pocock 13 (1983) (E2 = α2.p.q / n, onde E = erro amostral, p = prevalência, q = complemento da prevalência e α = 1,96), a amostra calculada foi de 255 pacientes, com perda de 10%, totalizando uma amostra final de 280.

Foram utilizados como critérios de inclusão na pesquisa: ter procurado de forma aleatória um dos serviços referidos para realização de ultrassonografia; adultos de ambos os sexos de 18 a 60 anos de idade; permissão para o preenchimento do questionário. Utilizou-se como critério de exclusão não ser capaz de responder o questionário (deficiência mental).

Foram analisadas as seguintes variáveis: idade, sexo, renda, escolaridade, circunferência da cintura e IMC.

Os pacientes procuraram um dos quatro serviços e após a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, responderam a um questionário com informações sociodemográficas e realizaram aferição de medidas antropométricas. O referido questionário continha informações sobre as seguintes variáveis: nome, idade, data de nascimento, naturalidade, escolaridade, renda, comorbidades associadas como diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial sistêmica (HAS).

A avaliação antropométrica consistiu na aferição de peso, altura e circunferência da cintura. Para o peso corpóreo, foi utilizada uma balança portátil marca TECHLINE com o paciente em pé, descalço, no centro da balança, com o peso distribuído em ambos os pés. A aferição da altura foi feita por meio de um estadiômetro portátil da marca FILIZOLA com a leitura realizada no milímetro (mm) mais próximo, onde o paciente posicionou-se descalço, verticalmente com os braços estendidos ao longo do corpo, ombros relaxados e com os calcanhares juntos e a cabeça posicionada.

Os dados de peso e altura foram utilizados para o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC), calculado pelo índice de Quetelet: pela razão entre o peso corpóreo em quilograma e altura em metro ao quadrado e classificado segundo critério da Organização Mundial da Saúde (OMS) em: até 24,9 normal, de 25 a 29,9 sobrepeso, de 30 a 34,9 obesidade grau I ou leve, de 35 a 39,9 obesidade grau II ou moderada e ≥ 40 obesidade grau III ou grave 6,7. A circunferência da cintura (CC) foi medida com o paciente em pé, utilizando uma fita métrica inelástica a nível do ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca 14.

Para cada variável, gênero, idade, escolaridade, renda, circunferência da cintura e comorbidades os valores de IMC foram comparados. O teste ANOVA e t-Student foram executados para as comparações entre os grupos formados. Os valores estão expressos em média e desvio padrão da média (DP). A significância estatística foi estipulada em 5% (p < 0,05). Para todas as análises, foi utilizado o programa SPSS® (Statistical Package for Social Sciences, versão 22.0).

RESULTADOS

Foram analisados 690 indivíduos, sendo 494 mulheres (71,59%) e 196 homens (28,40%). A média de idade dos pacientes analisados foi de 39,48 anos (DP = 11,31), a média de idade para excesso de peso foi de 43,13 anos (DP =10,19) e a média de idade dos pacientes com obesidade foi de 42,38 (DP 9,8).

Ao analisar o IMC de acordo com os valores estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde observou-se que 365 indivíduos da população estudada apresentaram valor normal (52,89%), 215 apresentaram sobrepeso (31,15%), 72 apresentaram obesidade grau I (10,43%), 31 obesidade grau II (4,49%) e 7 obesidade grau III (1,01%). A média de IMC da amostra foi 25,2 kg/m² (DP = 5,3).

Em relação à escolaridade, 246 (35,65%) pacientes eram analfabetos ou possuíam o primeiro grau, 255 (36,95 %) o segundo grau e 189 (27,39%) o terceiro grau.

Em relação à renda, 437 (63,33%) não tinham renda ou recebiam um salário ou bolsa família, 206 (29,85%) recebiam de 1,5 a 4,5 salários mínimos e 47 (6,81%) recebiam mais 4,5 salários mínimos. Um panorama geral que divide o número de indivíduos pesquisados por gênero, IMC, renda e escolaridade estão apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Amostra total dos indivíduos pesquisados categorizados segundo o gênero, IMC, renda e escolaridade.

  n %
Sexo F 494 71,6
M 196 28,4
IMC < 25 365 52,9
≥ 25 e < 30 215 31,2
≥ 30 e < 35 72 10,4
≥ 35 e < 40 31 4,5
≥ 40 7 1,0
Renda Abaixo de 1,5 salários 437 63,3
De 1,5 a 4,5 salários 206 29,9
Acima de 4,5 salários 47 6,8
Escolaridade Até Ensino Fundamental 246 35,7
Até Ensino Médio 254 36,8
Ensino Superior 189 27,4

Legenda: IMC: Índice de massa corporal.

A circunferência da cintura apresentou média de 85,52 cm (DP 13,26) e em obesos 104,94 cm (DP 10,57). 

Os valores de IMC comparados entre gêneros, idades, rendas, escolaridades e comorbidades são apresentados na Tabela 2.

Tabela 2. Associação das médias do IMC com variáveis como gênero, idade, renda e escolaridade.

    IMC  
  Média DP n p
Gênero F 24,95 5,5 494 0,066
M 25,77 4,8 196
HAS Não 24,65 5,0 589 0,001
Sim 29,1 5,7 89
DM Não 25,2 5,17 657 0,141
Sim 26,9 7,92 21
Renda Abaixo de 1,5 salários 24,67 5,49 437 0,003
De 1,5 a 4,5 salários 25,97 4,83 206
Acima de 4,5 salários 26.45 4,78 47
Escolaridade Até Ensino Fundamental 26,06 5,33 246 0,004
Até Ensino Médio 24,66 5,21 254
Ensino Superior 24,7 5,23 189

Legenda: HAS: Hipertensão Arterial Sistêmica; DM: Diabetes mellitus tipo 2; p: nível de significância.

O IMC foi significativamente maior no grupo dos hipertensos p=0,001. Não houve associação estatisticamente significativa entre o IMC e o diabetes mellitus (p=0,14).

 Para escolaridade e IMC houve associação estatisticamente significativa (p=0,004), com IMC mais elevado no grupo com menor escolaridade (figura 1).

Figura 1. Associação entre escolaridade e IMC.

Legenda: IMC: Índice de Massa Corporal; 1: Até Ensino Fundamental; 2: Até ensino médio; 3: Ensino superior.

 

Houve associação estatisticamente significativa entre renda e IMC (p=0,003), tendo sido observado maior IMC nos grupos de maior renda (figura 2).

Figura 2. Associação entre IMC e renda.

Legenda: IMC: Índice de massa corporal; 1: abaixo de 1,5 salários; 2: de 1,5 a 4,5 salários; 3: acima de 4,5 salários

 DISCUSSÃO

Wanderley Ferreira1 (2010) apontam que a obesidade é, atualmente, considerada a mais importante desordem nutricional nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Pêgo-Fernandes et al15 (2011) relatam que aproximadamente 1,6 bilhão de adultos (com idade superior a 15 anos) estejam em situação de sobrepeso e 400 milhões em situação de obesidade; os referidos autores estimam ainda que para 2015 esperam-se 2,3 bilhões de pessoas ao redor do mundo com excesso de peso. De acordo com os dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares16 (POF, 2008), feita no Brasil, cerca de 15% dos adultos apresentam obesidade e cerca de metade da população maior de 20 anos apresenta excesso de peso. Em concordância com os dados citados, a última pesquisa feita através da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico17 (VIGITEL, 2014) indicou um crescimento do número de pessoas com excesso de peso no país, o estudo descreveu que 52,5% dos brasileiros estão acima do peso (o índice era 43% em 2006) e 17,9% da população está obesa. O presente estudo não difere da tendência mundial e nacional, já que se evidenciaram altas prevalências de excesso de peso em adultos de ambos os sexos (47,11%) o que permite classificar a situação como um problema de saúde pública no município avaliado.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008-200916 apresenta dados do Brasil para excesso de peso segundo o gênero. Conforme a POF, a prevalência de excesso de peso foi de 50,1% para o sexo masculino e 48% para o sexo feminino. Resultado semelhante ao citado foi encontrado pelo VIGITEL Brasil17 (2014), que apresentou uma prevalência de excesso de peso no país de 49,1% em mulheres e 56,5% em homens. Contrapondo tais dados, Lino et al18 (2011) identificaram em sua pesquisa relacionada ao excesso de peso em adultos do município de Rio Branco, Acre, maior prevalência de excesso de peso em mulheres, com 51,8%, e, em homens, com 45,3%. Os dados encontrados na presente pesquisa, ao relacionar as prevalências de excesso de peso segundo o gênero no município de Aracaju, indicaram maior prevalência em homens com uma média de IMC de 25,77 e uma menor prevalência em mulheres com uma média de IMC de 24,95, o que identifica uma possível tendência epidemiológica conforme apontam as importantes pesquisas nacionais já citadas, além de inferir, haja vista o maior número de mulheres como gênero pesquisado, uma maior preocupação deste grupo com a saúde e consequentemente uma menor prevalência de excesso de peso.

Holanda et al19 (2011), em suas pesquisas, relataram um aumento linear do excesso de peso à medida que aumenta a idade; segundo o estudo, a partir dos 40 anos a prevalência de excesso de peso esteve presente em maior frequência. Guimarães et al20 (2010) e Machado et al21 (2014) também encontraram dados semelhantes no que se refere ao aumento da idade ser diretamente proporcional a maiores chances de haver excesso de peso. O Vigitel17 (2014) também aponta que a prevalência de excesso de peso acompanha o aumento da idade, a pesquisa relata que na faixa etária de 45-54 anos o percentual foi de 61,6% e na faixa etária de 55-64 anos o percentual foi de 61,8%. O presente estudo corrobora com os dados encontrados nas pesquisas citadas e permite inferir que à medida que a idade aumenta há uma diminuição da taxa de metabolismo basal com consequente aumento do peso no indivíduo.

No que se refere à relação entre excesso de peso e escolaridade, Backes et al22 (2011) identificaram em suas pesquisas na zona urbana do município de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, que o grupo de maior percentual para excesso de peso pertencia àqueles que foram classificados em baixa escolaridade (61,7%). Os recentes dados do VIGITEL17 (2014), divulgados em 2015, corroboram com a pesquisa anteriormente citada ao afirmar que quanto menor a escolaridade, maior a prevalência do excesso de peso. O estudo recente de Rodrigues Silveira23 (2015), que avaliou obesos graves, encontrou uma correlação negativa significante de escolaridade com o peso (r = -0,234) e IMC (r = -0,364). O presente estudo aponta a mesma tendência das importantes pesquisas citadas, já que menos anos de estudo estiveram relacionados à presença de excesso de peso. Assim, pode-se supor que quando se aumenta o acesso à informação, mais saudável é a escolha de alimentos e consequentemente melhor o estilo de vida.

Silva et al24 (2012), em seu estudo sobre a prevalência e fatores associados ao excesso de peso em adultos do Brasil, identificaram uma significativa associação entre renda e excesso de peso, os autores classificaram a renda em alta, média e baixa (maior ou igual a 4 salários mínimos, igual a 4 salários mínimos e 2>SM<4, respectivamente) e os indivíduos pesquisados com excesso de peso/obesidade possuíam, em sua maioria, uma renda qualificada como alta (29,4% estavam em sobrepeso e 10,8% em obesidade). Lino et al18 (2011), de maneira semelhante, relataram em seus estudos que dos indivíduos com excesso de peso, a maioria possuía uma renda de mais de 3 salários mínimos. Rodrigues Silveira23 (2015) encontraram que em obesos graves a maior renda per capita se associou ao maior consumo de vegetais folhosos e de doces. A presente pesquisa apontou a mesma tendência da literatura, já que maiores salários relacionaram-se com os maiores valores de IMC. Supõe-se dessa forma que quanto maior o poder aquisitivo, maior a possibilidade de consumo de refeições prontas, refrigerantes, gorduras, açúcares e alimentos processados e, consequentemente, maiores chances para sobrepeso e/ou obesidade.

Já está bem estabelecida na literatura a íntima relação entre valores aumentados de IMC e a concomitância com a hipertensão arterial sistêmica. Segundo Amer et al25 (2011), em âmbito mundial a prevalência da hipertensão arterial está muito mais aumentada em indivíduos com peso acima dos valores normais do que naqueles que estão com o peso na faixa de normalidade. Girotto et al26 (2010) identificaram em suas pesquisas alta prevalência e correlação entre obesidade e hipertensão. Da mesma forma, Cavagioni Pierin27 (2010) identificaram associação significativa entre hipertensão e maiores níveis de índice de massa corporal, dados que corroboram com os resultados encontrados no presente estudo, o que permite inferir que fatores pró-inflamatórios/patogênicos liberados pelo indivíduo em sobrepeso ou obesidade contribuem para uma injúria vascular possível geradora da HAS.

Nos indivíduos com excesso de peso a ação da insulina na gênese do diabetes mellitus (DM) já está bem elucidada conforme explicita Swarowsky et al2 (2012) ao afirmar que o aumento dos níveis glicêmicos e a hiperinsulinemia geradas a partir da obesidade baseia-se no fato de que o tecido adiposo eleva a demanda de insulina, gera uma resistência a ela mesma e tem como consequência o diabetes. A interrelação entre obesidade e o DM é tão grande, aponta Luft28 (2010), que o termo “diabesidade” tem sido empregado para enfatizar a importância da obesidade como fator etiopatogênico do diabetes mellitus. Torres et al29 (2010) encontraram em seus estudos uma associação significativa entre excesso de peso e DM; a pesquisa apontou que os homens e mulheres portadores de diabetes possuíam uma média de IMC de 28,91 e 30,54, respectivamente. O presente estudo também evidenciou um aumento do IMC nos portadores de DM muito embora não tenha evidenciado associação estatisticamente significativa (p= 0,14).

Estudos tentam comprovar a associação entre o peso ao nascer com o surgimento de obesidade e fatores de risco cardiometabólicos na adolescência. O estudo de Medeiros et al. (2012), embora não ter encontrado uma associação significativa entre peso ao nascimento e os fatores de risco, constatou comportamentos diferentes destes fatores de acordo com a classificação do peso ao nascer 30.

CONCLUSÃO

A prevalência de excesso de peso e obesidade da amostra populacional avaliada na cidade de Aracaju parece ser alta sendo maior no gênero masculino, em faixas etárias mais elevadas, em classes sociais mais altas e de menor escolaridade. A associação com HAS foi evidenciada. Embora existam diversos métodos para avaliação da obesidade, a presente pesquisa apenas avaliou como indicador antropométrico o IMC. Apesar do uso deste único indicador, o instrumento mostrou-se de fácil utilização, de baixo custo e com resultados consistentes com importantes achados que corroboraram com pesquisas nacionais e internacionais acerca do excesso de peso em populações. Desta forma, possibilitou-se a identificação de grupos mais vulneráveis e, assim, poderá permitir a adoção de medidas de promoção e prevenção da saúde em determinados grupos, haja vista o impacto que o excesso de peso pode gerar na saúde pública.

Portanto, sugere-se a realização de outros estudos sobre excesso de peso e obesidade, com novos indicadores antropométricos como a relação cintura-quadril, relação cintura-estatura, índice de conicidade, produto de acumulação lipídica e índice de adiposidade visceral na tentativa de caracterização de novos perfis populacionais mais vulneráveis ao excesso de peso e às DCNT.

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Notas

Conflitos de interesse

Os autores declaram não ter qualquer conflito de interesse.

Autor correspondente

Mário Augusto Ferreira Cruz - m.gutocruz@gmail.com

Departamento de Medicina da Universidade Tiradentes Avenida Murilo Dantas, 300, Bairro Farolândia CEP 49032-490 - Aracaju - Sergipe - Brasil.

Augusto César Santiago Araújo Júnior

Josilda Ferreira Cruz – MsC

Demetrius Silva de Santana

Renata Tavares da Silva

Karla Freire Rezende – PhD

Cristiane Costa da Cunha Oliveira – PhD

Sônia Oliveira Lima – PhD