SAÚDE COLETIVA

COLLECTIVE HEALTH


O impacto da inclusão digital na qualidade de vida do idoso – resultados da “oficina da lembrança”

The impact of digital inclusion in the quality of life of elderly – results of “oficina da lembrança”

  • Recebido: 12 de Março de 2017
  • Aprovado: 21 de Abril de 2017
  • Publicado: 01 de Fevereiro de 2018
  • Atualidades Médicas - Volume 1 - Edição nº 2 - Ano 2017 - Julho, Agosto
  • Páginas: 51-59
  • DOI:

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Resumo

Objetivo: Investigar a influência de atividades em grupo com uso de computadores e internet na qualidade de vida dos idosos. Método: Trata-se de um estudo epidemiológico longitudinal, com amostra de 40 idosos, avaliados em três momentos, durante a série de 20 oficinas de inclusão digital e estimulação cognitiva, por meio do questionário validado de qualidade de vida (SF-36). Inicialmente foi realizado o cálculo dos escores do SF-36 e, em seguida, os dados foram analisados de forma descritiva. Para observar a variação da qualidade de vida foi utilizado um modelo multinível, realizado no programa Stata/SE 9.0. Resultados: Nas alterações da qualidade de vida relacionadas aos domínios do SF-36, observou-se maior escore no domínio saúde mental na primeira avaliação, seguido pelos aspectos sociais na segunda avaliação, e limitações por aspectos emocionais na terceira avaliação. Exceto pelo domínio dor, todos os outros escores apresentaram aumento significativo no decorrer das oficinas. O maior aumento da qualidade de vida foi observado nas limitações por aspectos emocionais. Conclusão: Percebe-se que o uso de computadores e internet proporciona benefícios para saúde e bem-estar dos idosos, como ferramenta efetiva de comunicação e interação social, e influência de forma positiva na qualidade de vida dos idosos.

Summary

Objective: To investigate the influence of group activities with the use of computers and internet in the quality of life of seniors. Method: This is a longitudinal epidemiological study with a sample of 40 elderlies assessed three times during series of 20 workshops on digital inclusion and cognitive stimulation, through validated quality of life questionnaire (SF-36). Initially It was conducted the calculation of scores of SF-36 and then the data was analyzed descriptively. To observe change in quality of life multi-level model was used achieved in Stata/SE 9.0 software. Results: The changes in quality of life related to SF-36 showed higher score in the mental health field in the first assessment, followed by the social aspects in the second evaluation, and limitations due to emotional problems in the third assessment. Except for the pain domain, all other scores showed a significant increase during the workshops. The largest increase in quality of life was observe in limitations due to emotional problems. Conclusion: It is clear that the use of computers and the internet provides benefits for health and well-being of the elderlies, as an effective tool for communication and social interaction, and it positively influences the quality of life of seniors.

Unitermos/Uniterms

  • Idoso
  • Internet
  • Qualidade de vida
  • Quality of life
  • Aged
  • Internet

Introdução

Nas últimas décadas, ocorreram mudanças nas condições socioeconômicas e de saúde da população em todo o mundo e, consequentemente, na estrutura demográfica, gerando um aumento expressivo da população idosa 1. A proporção de pessoas acima de 60 anos de idade cresce mais do que qualquer outra faixa etária, principalmente nos países em desenvolvimento 2.

Estima-se que, em 2025, o Brasil abrigará a sexta maior população mundial de idosos. Em relação a esse contingente populacional, em números absolutos, serão cerca de 32 milhões de pessoas 3. Desta forma ressalta-se ser de grande importância garantir aos idosos não apenas maior longevidade, mas maior felicidade, qualidade de vida e satisfação pessoal 4.

Baseado nisto, há necessidade de desenvolver políticas de promoção da saúde que incentivem os idosos a permanecerem ativos, independentes e que efetivamente proporcionem um efeito positivo na qualidade de vida. O envelhecimento ativo está relacionado a percepção satisfatória que os indivíduos têm em relação à sua posição na vida no contexto cultural e sistema de valores em que vivem, bem como aos seus objetivos, expectativas e padrões sociais 2.

A qualidade de vida é definida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Esta definição inclui seis domínios principais: saúde física, estado psicológico, níveis de independência, relacionamento social, características ambientais e padrão espiritual 5.

Dentre as situações que mais afetam a qualidade de vida dos idosos destacam-se as doenças, as perdas mentais e físicas, como por exemplo, a dificuldade de movimentação e as tonturas, o aparecimento de sinais e sintomas incapacitantes, expressos pela imagem do corpo, pela menor agilidade e pela perda de força. Apresentam-se ainda as dificuldades de relacionamentos familiares e os maus hábitos 3.

As atividades de lazer e a convivência em grupo contribuem tanto para manutenção do equilíbrio biopsicossocial do idoso, quanto para amenizar possíveis conflitos ambientais e pessoais. O bem-estar proporcionado pela participação do idoso em atividades grupais contribui para que ele vivencie trocas de experiências e propicie conscientização para a importância do autocuidado 3.

O uso da tecnologia constitui-se em uma aliada para proporcionar qualidade de vida aos idosos 6. O uso do computador e da Internet torna possível, para os idosos, maior interação social e comunicação, possibilita a ampliação de círculo de amizades, funciona como uma estimulação mental e é opção de lazer 7,8. Esta experiência de intervenção da Internet não só proporciona um melhor estado psicológico e emocional, mas também afeta a base da autoimagem e da autoconfiança, conferindo a esses idosos um sentimento de realização 6,9.

Por outro lado, o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas indicam maior risco de exclusão digital da população idosa. Desta forma, há a preocupação de estimular novos estudos a respeito de formulações de novas tecnologias que melhor atendam às necessidades do crescente número de idosos 10. O ingresso no mundo virtual pode ainda diminuir a sensação do idoso de ser deixado de fora da sociedade moderna, melhorando assim a autoestima e a satisfação com a vida 11.

No Brasil, Silveira 12 considera a inclusão digital como a universalização do acesso ao computador conectado à Internet, bem como, ao domínio da linguagem básica para manuseá-lo, como autonomia. É a compreensão e apropriação da estrutura atual da sociedade do conhecimento e pode representar importante estratégia para melhoria cognitiva de idosos, ajudando-os a continuar a realizar diariamente atividades de forma independente 7.

Desta forma, é pertinente discutir acerca da inclusão digital como instrumento para proporcionar melhoria da saúde, cognição e bem-estar dos idosos. A partir do exposto acima este estudo tem como objetivo investigar a influência das atividades com uso de computadores e internet na qualidade de vida dos idosos.

Métodos

Trata-se de um estudo epidemiológico longitudinal desenvolvido no Laboratório de Informática do Campus Ponte do Imaruim da Universidade do Sul de Santa Catarina, situado em região central do município de Palhoça, Santa Catarina.

O laboratório de informática conta com 20 computadores em rede, conexão à Internet por meio de banda larga e projetor multimídia, no qual foram realizadas oficinas de inclusão digital nos meses de agosto a novembro de 2011, no período vespertino.

A população estudada foi composta por 40 idosos participantes da oficina de inclusão digital no período citado, que apresentaram 55 anos ou mais de idade, com ou sem queixas de memória, com ou sem algum nível de escolaridade. Esta idade foi adotada em vista do declínio cognitivo ocorrer anteriormente aos 60 anos de idade. O público alvo foi preferencialmente de moradores do entorno da universidade, mas sem exclusividade.

Os critérios de inclusão foram indivíduos com 55 ou mais de idade e com capacidade cognitiva suficiente para participar das atividades oferecidas. Já os critérios de exclusão, os que não responderam ao questionário de qualidade de vida na primeira oficina.

Inicialmente os participantes responderam o questionário de qualidade de vida, e posteriormente iniciaram a participação nas oficinas de inclusão digital, sendo que os encontros ocorreram duas vezes por semana, perfazendo no total 30 horas/aula, ou seja, um ciclo de 3 meses. Ao todo foram realizadas 20 oficinas e após oito semanas de aula foi novamente realizada a avaliação dos participantes pelo SF-36 e uma terceira avaliação aplicada ao final do ciclo de aulas.

O início das oficinas ocorreu com a apresentação dos monitores e de cada um dos participantes, seguida pela realização de contrato de sinceridade, espontaneidade e privacidade do trabalho. O esclarecimento da definição do objetivo de Inclusão Digital, reabilitação e melhoria da memória e capacidade funcional, deixou clara a noção de que não se tratava de “oficinas de informática”, mas que a informática era usada como ferramenta digital e por isso foi aprendidos aspectos básicos do uso do computador e da Internet.

Cada oficina teve a duração de 90 minutos com a seguinte estrutura: introdução do tema do dia, qual ferramenta foi utilizada (5 a 10 minutos). Interação e uso da(s) ferramenta (as) proposta (as) com duração de 60 minutos com 5 minutos de intervalo para alongamento. Reunião de todo o grupo ao final em círculo para avaliação do trabalho do dia (15 minutos).

Foi utilizado um instrumento construído para este estudo o qual visou a avaliação da população quanto ao sexo, faixa etária (55 a 65 anos; 66 a 80 anos), estado civil (solteiro, casado, divorciado, viúvo) e nível socioeconômico investigado por meio da escolaridade (anos estudados) e a profissão/ocupação atual (autônomo, aposentado, outro), os quais compõe as variáveis independentes do estudo.

Como instrumento para avaliação do perfil da Qualidade de Vida, utilizou-se o Questionário SF36®, The Medical Outcomes Study 36-item Short Form Health Survey, um questionário genérico, traduzido e validado para a língua portuguesa por Ciconelli et al. (1997) 13, composto por 36 itens, que se resumem em oito escalas, com o resultado variando de 0 a 100 pontos, zero(0) representando o pior estado geral de saúde e cem (100) o melhor estado de saúde. O SF-36 é indicado como bem desenhado, multidimensional e portanto útil para este tipo de avaliação, de fácil administração e compreensão.

Este questionário é considerado um índice de percepção do status geral de saúde que incorpora padrões comportamentais. O SF-36 engloba as seguintes escalas: capacidade funcional (CF) com 10 itens; Desempenho físico (DF) com 04 itens; Dor (DR) com 02 itens; Estado geral de saúde (EGS) com 05 itens; Vitalidade (VT) com 04 itens; Aspectos sociais (AS) com 02 itens; Aspectos emocionais (AE) com 03 itens; Saúde mental (SM) com 05 itens e evolução do estado de saúde (EV), que se refere a avaliação comparativa entre as condições de saúde atual e a de um ano atrás, com 01 item. Essa última escala, por sua vez serviu apenas de referência, prevalecendo com isso oito domínios a serem analisados e sendo assim, as variáveis dependentes do estudo.

O cálculo dos escores do SF-36 foi feito de acordo com os seguintes passos:

– Cálculo de cada um dos domínios (capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral da saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental) e soma dos pontos obtidos em cada item relativo ao domínio correspondente, para cada indivíduo.

– Cálculo do Raw Scale que corresponde a transformação do valor das questões anteriores em notas de 8 domínios que variam de 0 (zero) a 100 (cem), onde 0 = pior e 100 = melhor para cada domínio. É chamado de Raw Scale porque o valor final não apresenta nenhuma unidade de medida. Aplicou-se a seguinte fórmula:

Na fórmula, os valores de limite inferior e variação (Score Range) são fixos.
Os escores e as variáveis independentes foram analisadas de forma descritiva. Para observar a variação da qualidade de vida entre as observações foi utilizado um modelo multinível, em que as repetições das medidas foram consideradas o nível 1, e os indivíduos, o nível 2. As variáveis independentes foram consideradas como a parte fixa do modelo, que mostra a magnitude das associações entre as variáveis, enquanto a variável qualidade de vida, foi a parte aleatória, mostrando a variabilidade entre as observações. As análises foram realizadas no programa Stata/SE 9.0.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL, sob protocolo 11.475.4.01. III, de 15 de novembro de 2011, e obedeceu a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Os participantes foram informados sobre os objetivos e finalidades do trabalho, e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O projeto de extensão “oficina da lembrança”, no qual o presente estudo foi desenvolvido, é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob processo número 563449/2010-1.

Resultados

No período de agosto a novembro de 2011, foram entrevistados 51 participantes da Oficina de inclusão digital, destes 11 foram excluídos por não responderem ao questionário de qualidade de vida na primeira oficina (taxa de resposta de 78,4%). A maioria dos participantes tinham idade entre 55 a 65 anos (60,0%), eram do sexo feminino (85,0%) e casados (67,5%). Cerca de 87,5% dos indivíduos apresentaram até onze anos de estudo e eram aposentados (75,0%) (Tabela 1).

Tabela 1 – Análise descritiva das variáveis sociodemográficas
Variáveis n %
Idade    
  55 a 65 24 60,0
  66 ou mais 16 40,0
Sexo    
  Masculino 6 15,0
  Feminino 34 85,0
Estado civil    
  Solteiro 2 5,0
  Casado 27 67,5
  Divorciado 4 10,0
  Viúvo 7 17,5
Escolaridade    
  Até 11 anos 35 87,5
  Maior de 11 anos 5 12,5
Profissão    
  Autônomo 4 10,0
  Aposentado 30 75,0
  Outro 6 15,0

Em relação aos domínios da qualidade de vida avaliados pelo SF-36 o maior escore foi obtido no domínio saúde mental (70,4) na primeira avaliação, nos aspectos sociais (75,9) na segunda avaliação, e na terceira, as limitações por aspectos emocionais (83,3). O menor escore foi obtido no domínio Estado Geral de Saúde nas três avaliações. Observa-se que todos os domínios tiveram aumento progressivo do escore relacionado ao número de intervenções (Tabela 2).

Tabela 2 – Média dos valores dos domínios do SF-36 em cada avaliação
Variáveis 1a. Avaliação 2a. Avaliação 3a. Avaliação
média (DP) média (DP) média (DP)
Capacidade funcional 63,0 (23,8) 63,0 (25,0) 73,1 (20,7)
Limitação por aspectos físicos 60,0 (35,7) 60,6 (35,7) 73,1 (36,0)
Dor 62,6 (23,2) 61,3 (23,1) 65,8 (27,0)
Estado geral de saúde 48,9 (7,8) 54,0 (16,2) 64,0 (17,9)
Vitalidade 63,4 (22,8) 66,4 (20,7) 73,0 (20,4)
Aspectos sociais 70,0 (25,7) 75,9 (21,0) 80,9 (25,3)
Limitação por aspectos emocionais 59,2 (39,6) 57,5 (39,9) 83,3 (32,0)
Saúde mental 70,4 (20,5) 73,8 (18,4) 79,8 (16,1)

Em relação à média da qualidade de vida das três avaliações, observou-se que a saúde mental teve a maior média (65,3), seguida dos aspectos sociais (64,7) e capacidade funcional (56,3). Exceto o domínio dor, todos os outros tiveram uma variação significativa com aumento do escore de qualidade de vida durante a intervenção. O maior aumento da qualidade de vida foi observado nas limitações por aspectos emocionais, aumento significativo de 12,1 pontos, seguido por estado geral de saúde 7,5 e limitação por aspectos físicos 6,6 (Tabela 3).

Tabela 3 – Média e variação dos domínios do SF-36
Variáveis Média das avaliações (IC95%) Variação dos escores (IC95%)
Capacidade funcional 56,3 (47,8-64,7) 5,1 (2,4-7,7)
Limitação por aspectos físicos 51,5 (38,5-64,4) 6,6 (2,5,10,6)
Dor 60,0 (50,5-69,5) 1,6 (-1,9-5,1)
Estado geral de saúde 40,6 (34,8-46,3) 7,5 (5,4-9,7)
Vitalidade 58,0 (50,2-65,7) 4,3 (2,3-7,3)
Aspectos sociais 64,7 (55,0-74,4) 5,5 (1,7-9,2)
Limitação por aspectos emocionais 42,5 (27,0-58,0) 12,1 (5,8-18,3)
Saúde mental 65,3 (58,3-72,3) 4,7 (2,2-7,2)

 Discussão

O presente estudo teve por finalidade investigar a influência da reabilitação cognitiva, através de atividades com uso de computadores e internet na qualidade de vida dos idosos, e foi possível perceber progressiva melhora dessa ao decorrer das oficinas. Por outro lado, houve limitações, a maior dela a amostra reduzida de 40 idosos, por conveniência, na qual todos os idosos desejavam participar das oficinas, limitando assim a extrapolação dos resultados para outros grupos de idosos.

A utilização de questionários de qualidade de vida em idosos tem possibilitado o acesso a informações fundamentais para a atenção à saúde, apesar das dificuldades de compreensão dos instrumentos de avaliação por parte desta população 14. Em populações idosas, as taxas de itens não respondidos são altas, quando o questionário é autoadministrado15. Entretanto, no presente estudo, devido criterioso acompanhamento do pesquisador durante as etapas de avaliação, esta limitação não ocorreu 16,17.

Quanto a idade dos participantes, há claramente o predomínio de indivíduos entre 55 a 65 anos. À medida que progridem, no processo de envelhecimento os mecanismos envolvidos na plasticidade do sistema nervoso são afetados e há declínio das funções cognitivas. Desta forma os idosos mais jovens parecem apresentar maior capacidade de aprendizagem, memória e função executiva, já que apresentam maior potencial de reorganização e compensação neural, o que possibilita maior benefício deste grupo com uma intervenção cognitiva 18.

Echt et al19 compararam idosos mais novos e idosos mais velhos quanto às condições para adquirir e reter habilidades computacionais básicas após treinamento especializado. Os resultados foram favoráveis aos mais jovens no que refere a menos erros no desempenho das tarefas; menor necessidade de assistência e menos tempo no treinamento. Outro estudo10 que abordou a adoção da tecnologia por parte dos idosos, relata que tanto o grupo de idosos mais velhos quanto o de idosos mais jovens foram capazes de encontrar soluções para os problemas de pesquisa relacionados ao uso do computador e da internet. Os idosos mais velhos, no entanto, demoraram mais para encontrar soluções.

Com relação ao estado civil houve predomínio de casados na população estudada. Resende e Neri 20 apontam que as pessoas solteiras ou viúvas apresentam atitude mais negativa frente à velhice quando comparadas as casadas. Esse dado possivelmente reflita a evidência empírica de que os idosos casados têm melhor qualidade de vida do que os que vivem sozinhos e procuram mais por atividades que promovam maior bem-estar.

Entre os participantes prevaleceram os aposentados, que pode estar associado ao fato de possuírem maior tempo livre, procurando assim, nova forma de se ocupar, em busca de novos relacionamentos e troca de informações. Sabe-se que o fator econômico entre os idosos tem influência importante na qualidade de vida, pois oferece suporte material para o bem-estar do indivíduo e maior independência 3,4. A influência da escolaridade também é um aspecto a ser considerado em populações com baixo nível socioeconômico. Nota-se neste estudo que a grande maioria dos idosos apresentou certo grau de escolaridade, o que reforça a ideia de que a educação formal, em geral, facilita o desempenho intelectual 21.

Ao abordar os domínios do questionário de qualidade de vida, observou-se aumento progressivo dos escores nas três avaliações do presente estudo. Assim, é possível inferir melhora da qualidade de vida dos idosos à medida que aumentou o número de intervenções. Estes dados parecem confirmar os resultados obtidos no estudo de Lam e Lee 9 uma vez que indicam que o uso do computador melhora o estado psicológico dos idosos, reforçando sua autoconfiança e ganham com isso maior sentimento de realização. Reforça ainda, que os programas sociais destinados a aumentar a qualidade de vida dos idosos na comunidade não deve ignorar o computador como instrumento de treino.

Da mesma forma o trabalho de Xavier et al 22 aponta os benefícios do uso da internet, como a associação a adesão de cuidados primários e secundários preventivos de câncer, tais como a realização de atividade física, ingesta de frutas e verduras e o não hábito de fumar.

Entretanto, encontra-se em desacordo com estudo realizado por Slegers et al 11 em que demonstrou não haver evidências significativas do efeito do computador e o uso da Internet na saúde e no bem-estar dos idosos. Não sendo encontrada nenhuma evidência para um efeito positivo na qualidade de vida.

O domínio saúde mental busca avaliar a interferência de sentimentos como ansiedade, depressão, felicidade e tranquilidade no cotidiano do indivíduo 21. Este domínio apresentou maior pontuação na primeira avaliação, o que possibilita discutir que os idosos no presente estudo possuem boa saúde mental, indicando assim que os fatores estressantes pouco interferiram nesta avaliação. Tal fato pode ser justificado por os idosos estudados em sua grande maioria já participarem de grupos de terceira idade o que demonstra maior independência, autonomia e preocupação com seu bem-estar físico, mental e social 2,3. O uso do computador pode contribuir para a saúde física e mental à medida que pode fornecer ao idoso acesso à informação7.

No domínio relacionado aos aspectos sociais estão envolvidos a interação com a família, com os amigos e com a comunidade, evidenciando desta forma o quanto o estado físico e emocional afetam às atividades sociais habituais do indivíduo 21. O principal determinante da percepção de alta satisfação com a vida é um relacionamento social estável 7. O escore médio deste domínio pode indicar que os idosos, participantes do estudo, apresentam boas habilidades sociais e que possuem redes bem estruturadas de suporte social. O estabelecimento de novos contatos sociais, interação em sala de aula, com indivíduos da mesma geração, evidencia efeitos positivos no convívio social e maior qualidade de vida, principalmente na velhice, quando o número de contatos sociais é mais restrito 23.

Estudo que buscou investigar as relações sociais de idosos italianos identificou que entre a proporção de idosos em que é frequente a falta de laços sociais há declínio na qualidade de vida. As relações sociais desempenham papel-chave na promoção de saúde dos idosos e os laços sociais mais frequentes são susceptíveis de estarem relacionadas com a melhoria na auto avaliação de saúde 24. Nesse contexto, a importância dos relacionamentos sociais é uma condição vital para que o idoso se posicione positivamente para viver com qualidade.

A Internet torna possível para as pessoas idosas a comunicação com parentes e amigos distantes, possibilita ampliar círculo de amizades, funcionando também como uma opção de lazer 7,8. Proporciona ainda sensação de maior capacitação que afeta suas relações interpessoais. Os idosos que começaram a usar a Internet se sentiram menos deprimidos e solitários, mais satisfeitos com vida, com mais controle e mais satisfeitos com suas atual qualidade de vida 6.

As limitações por aspectos emocionais avaliam como o estado emocional interfere nas atividades diárias domésticas ou no trabalho dos indivíduos, no período estudado 21. Analisando o presente estudo, pode-se perceber que as atividades com o uso do computador e da Internet contribuíram para a melhoria do perfil neste domínio, já que o escore médio alcançado na terceira avaliação foi de 83,3 entre os participantes do estudo. A principal hipótese para tal achado é que as alterações psicológicas evidenciadas no idoso são basicamente consequências das alterações físicas e sociais sofridas, o que levam os idosos a apresentarem maior ou menor iniciativa, motivação e segurança.

A inclusão digital constitui recurso importante no processo de inserção social. O domínio da tecnologia de informação digital estimula as atividades mentais, promovendo a preservação de habilidades cognitivas e emocionais 25. Segundo Shapira et al6 a experiência da intervenção da Internet proporciona melhor estado emocional e afeta a base da autoimagem e da autoconfiança do idoso. O uso do computador não só impede a deterioração do bem-estar através das experiências de capacitação pessoal, relação interpessoal, aprendizagem e superação de dificuldades, como também reforça fatores psicológicos importantes para a qualidade de vida dos idosos.

No escore Estado Geral de Saúde, o valor obtido foi o mais baixo, e sugere que a qualidade vida nesse aspecto, está mais prejudicada, embora indique significativa melhora na condição de saúde à medida que aumentou o número de intervenções. Esse domínio avalia como o entrevistado “vê” sua saúde de maneira geral. De acordo com Leite 26 apesar das perdas orgânicas, funcionais e mentais naturais do envelhecimento, é possível gerar um ser humano idoso sadio e com autonomia suficiente para realizar suas tarefas diárias, bem como, manter relações intelectuais e sociais com o meio em que vive.

Em correlação a média da qualidade de vida das avaliações, é possível observar que houve aumento significativo do escore de qualidade de vida ao final da intervenção, exceto o domínio dor que apresentou redução na segunda avaliação. Este avalia a presença e intensidade da dor relatada pelo indivíduo no período em questão. O que pode ser explicado por a dor ser um fator orgânico e desta forma não sofre tanta variação.

A dor é frequentemente descrita na literatura como uma das principais causas de incapacidade, além de estar relacionada com alterações do sono, prejuízos na capacidade funcional e, consequentemente, na qualidade de vida. Alguns autores 27,28, ao utilizar outro instrumento de avaliação, o WHOQOL-bref, evidenciaram a influência negativa da dor na qualidade de vida no aspecto físico e nas relações sociais dos idosos, a qual afeta também a manutenção da autonomia, e limita o desempenho de suas atividades cotidianas, e o torna dependente dentro de seu contexto social, econômico e cultural.

Quanto à capacidade funcional, esta é definida como a capacidade do indivíduo desempenhar as atividades da vida diária, que são as atividades de cuidados pessoais básicos como vestir-se, banhar-se, levantar-se da cama e sentar-se, utilizar o banheiro, comer e caminhar pequenas distâncias, mantendo assim a sua autonomia29,30. De acordo com os resultados deste estudo, os idosos apresentaram melhora significativa no escore deste domínio ao final das oficinas comparado a primeira avaliação.

A capacidade funcional é um aspecto central da qualidade de vida do idoso, que sofre influências com o aumento da idade 31,32, configura-se como alvo de investimento importante na avaliação e na promoção da saúde de indivíduos idosos. Resultados do estudo Epidoso, que acompanhou uma coorte de idosos por mais de 10 anos em São Paulo, reforçam a importância da capacidade funcional, que, junto com o estado cognitivo, foi um dos únicos fatores de risco para mortalidade que são mutáveis e se mantiveram independentes após análise. Destacam ainda que o convívio com outras pessoas proporciona relações fundamentais de cooperação e interatividade e que associado a atividade cognitiva como a manutenção do trabalho remunerado podem apresentar efeito protetor por mecanismos de suporte social para a perda funcional33.

Segundo Wagner et al 34 a independência funcional possui forte associação com a prevalência do uso de computadores e da Internet. Já Xavier et al35 realizaram um estudo com idosos e dentre aqueles que foram submetidos a oficinas de treinamento com uso de computadores e da Internet apresentaram aumento significativo do MEEM frente ao grupo controle.

Enfim, o bem-estar na velhice está relacionado com o equilíbrio entre várias dimensões da qualidade de vida e cada ser humano envelhece de maneira diferente. Trata-se não somente de um aspecto biológico, mas também influenciado pelo modo de vida e pelo ambiente em que se vive. Manter os idosos funcionalmente independentes e ativos é o primeiro passo para se atingir a melhor qualidade de vida 1. Visando atingir estas metas é que se torna de grande importância o incentivo a programas de estimulação cognitiva aproveitando os benefícios do uso do computador e da Internet.

Frente as limitações deste trabalho destacam-se o pequeno número de participantes, selecionados intencionalmente, e o fato do estudo não ser controlado.

Conclusão

Neste estudo, os resultados obtidos a partir da aplicação do questionário SF-36, verificou que exceto o domínio dor, todos os outros domínios investigados apresentaram aumento significativo e progressivo dos escores de qualidade de vida dos participantes no decorrer das oficinas. O maior aumento da qualidade de vida foi observado nas limitações por aspectos emocionais, seguido por estado geral de saúde e limitação por aspectos físicos.

O estudo conclui que o uso de computadores e internet proporcionam benefícios importantes para a saúde e bem-estar dos idosos, além de contribuir para a manutenção dos níveis cognitivos. A internet funciona como ferramenta efetiva de comunicação e interação social para os idosos, influenciando de forma positiva na qualidade de vida dessa população.

Agradecimentos

Os autores agradecem aos coordenadores, alunos bolsistas e idosos participantes do Projeto de extensão “Oficina da Lembrança” e ao CNPq pelo apoio financeiro.

Autor correspondente:
Ione Jayce Ceola Schneider. Departamento de Saúde Pública. Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima. Trindade – Florianópolis – Santa Catarina
CEP 88040-900. Tel.: (48) 37213418. E-mail: ione.jayce@gmail.com

Local de realização do estudo:
Laboratório de Informática do Campus Ponte do Imaruim da Universidade do Sul de Santa Catarina, situado em região central do município de Palhoça, Santa Catarina, Brasil.

Conflito de interesses:
Não há conflito de interesses.

Financiamento:
O projeto de extensão “Oficina da Lembrança”, no qual o presente estudo foi desenvolvido é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob processo número 563449/2010-1.

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Autor correspondente

Ione Jayce Ceola Schneider - ione.jayce@gmail.com

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