ARTIGO ORIGINAL

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Microlitíase testicular: importância do diagnóstico no homem

Testicular microlithiasys: importance of diagnosis in man

  • Recebido: 12 de Fevereiro de 2017
  • Aprovado: 21 de Março de 2017
  • Publicado: 01 de Fevereiro de 2018
  • Atualidades Médicas - Volume 1 - Edição nº 2 - Ano 2017 - Julho, Agosto
  • Páginas: 47-50
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Resumo

Microlítiase testicular (MT) é definida pela presença de no mínimo cinco microcalcificações nos testículos. Sua prevalência é estimada em 0,6 a 6,7% da população geral 4 e em crianças corresponde a 1,9% 5.É conhecida sua associação com algumas patologias: testículo não descido, varicocele, torção do testículo, síndrome de Klinefelter, síndrome de Down, síndrome de Carney, pseudohermafroditismo masculino, infertilidade e tumores malignos testiculares. Em relação a esse último, devido a falta de dados concretos na literatura, pode ser considerada uma situação predisponente o que determina uma vigilância ativa periódica.

Summary

There is a growing concern with locomotive problems associated with aging. Thus, a new concept emerges among the elderly, a Locomotive Syndrome (Slo), a condition resulting from the impairment of one or more components of the locomotor system of the elderly, leading to the loss of functionality and the future need for nursing care. Recalling, here, that disorders are constituted by a need for nursing care, a long term. The term Slo was originally proposed in Japan and recently introduced in our country, referring to individuals with reduced or at risk of “mobility”. Better knowledge of Slo by health professionals who provide care to the elderly population would improve the health management of these individuals and enable individualized proposals capable of preventing or delaying the progression of the deterioration of the locomotor system. A very easy-to-handle instrument, the GLFS 25-P, whose translation, adaptation and validation (from the “25-question Geriatric Locomotive Function Scale – GLFS 25”) into Brazilian Portuguese has recently been obtained, promises to assist the screening of the elderly with Slo. The dissemination of this tool could also favor the identification of the elderly with greater risks of incapacity related to the locomotor organs.

Unitermos/Uniterms

  • Microlitíase testicular
  • tumor testicular
  • Testicular microlitiasys
  • testicular tumor

Introdução

A microlitíase testicular (MT) é uma patologia pouco comum que atinge bilateralmente os testículos e é caracterizada por pequenas calcificações no lúmen dos tubulos seminíferos1.  Foi primeiramente reportada por Priebe & Garret  nos anos 70 2, e descrita por Doherty em 1987 como “inúmeros e minúsculos ecos brilhantes difusamente e uniformemente espalhados por toda a massa do testículo” 3.

Trata-se na maioria das vezes de um achado incidental no decurso de uma ultrassonografia escrotal, uma vez que é por norma assintomática, e pode ocorrer em testículos normais 1. Diagnosticada com maior frequência devido ao aumento do uso da ultrassonografia de alta resolução, na região inguinoscrotal 4. É classificada como microlitíase testicular limitada (MTL) se houver pelo menos uma imagem que mostre menos de cinco microcálculos, ou como microlitíase testicular clássica (MTC), quando cinco ou mais microcálculos existirem 5.

Pode surgir de forma isolada, mas em até 30 a 40% dos casos associa-se a tumores do testículo 6,7. Com isso, nos últimos anos, as microcalcificações testiculares têm sido consideradas um marcador de imagem de câncer testicular, de maneira que vários autores têm recomendado um rastreio por ultrassom escrotal de série em pacientes com microlitíase testicular, a fim de detectar possíveis tumores testiculares em pacientes assintomáticos 8.

A associação entre MT e patologia testicular maligna também parece ser válida para a população infantil(9) embora os micrólitos sejam extremamente raros nos testículos pré-puberes normais(10). A prevalência de MT numa população mista de doentes urológicos é próximo de 2%, não sendo significativa a diferença em relação à encontrada num grupo voluntário de homens saudáveis 7,11.

Hoje em dia, o fato de considerar a MT como uma lesão pré-maligna ou não ainda é motivo de muita discussão 5.

O trabalho tem o objetivo de discutir qual a importância da microlitíase testicular no homem.

Discussão

Os tumores testiculares em sua maioria são carcinomas de células germinativas (CCG). O carcinoma in situ (CIS) é precursor dos tumores no adulto. A literatura sugere que 40 a 50% dos portadores de CIS desenvolvem um carcinoma invasivo no período de 3 a 5 após o diagnóstico 12. Por enquanto a ultrassonografia é o método de imagem não invasivo e de menor custo com considerável valor no diagnóstico na detecção afecções do escroto. A investigação deve sempre estender-se aos dois testículos, visto que é bem conhecido que os doentes com tumor de célula germinativa unilateral estão em risco aumentado para o desenvolvimento de tumores no testículo contralateral 13.

A prevalência de microlitíase testicular (MT) é estimada em 0,6 a 6,7% da população geral 15 e em crianças corresponde a 1,9% 9. MT possui uma incidência de 1: 2100 para homens adultos, 1:618 para os meninos , e 1:15 para meninos com criptorquidia 16.

Algumas patologias tem associação definida com MT, como, testículo não descido, varicocele, torção do testículo, síndrome de Klinefelter, síndrome de Down, síndrome de Carney, pseudohermafroditismo masculino e infertilidade.

Microlitíase Testicular é uma entidade relativamente rara,  presente em cerca de 0,6% de todas ultrassonogramas testiculares 7. Por definição, MT é definida quando se encontram no mínimo cinco microcalcificações. A distribuição é geralmente múltipla, difusa e bilateral pelo parênquima testicular 6. Histologicamente, estes representam espalhados depósitos laminados de cálcio no lúmen dos túbulos seminíferos evidenciados pela coloração de Von Kossa para fosfato de cálcio 6.

A MT é classificada quanto ao número de cálculos encontrados por testículo:  Grau I (5-10 cálculos), Grau II (10-20 cálculos) e Grau III (>20 cálculos) (17,18).

O diagnóstico é realizado através de ultrassonografia, onde se evidenciam microcalcificações, de 1 a 3mm de diâmetro. A imagem ultrassonográfica é típica apresentando-se sem sombra acústica posterior em ultrassom de alta frequência (5-10Mhz).

Figura 1. Ultrassonografia escrotal: microlitíase testicular clássica

A relação entre microlitíase testicular e tumores malignos foi descrita pela primeira vez por Ikinger et al. em 1982. Estudos demonstram uma associação, seja síncrona seja metácrona, em até 40% dos casos(9,19). Contudo, 90% dos portadores de MT não apresentam tumores associados 20,21.

Pacientes diagnosticados com microlitíase testicular necessitam realizar um espermograma devido à relação desta com possível infertilidade. Além disso devem ser instruídos quanto à sua doença e a possível malignização. As recomendações relativas a vigilância clínica não são consensuais, porém, a maioria dos autores recomenda autoexame testicular mensal, ultrassonografia sem biópsia anual e exame urológico anual 17,22.

A associação entre MT e tumor testicular é discutida na literatura. Backus et al. 23 e Hobarth et al 24 informaram, respectivamente, que 17 (40%) de 42 e 5 (45 %) de 11 pacientes diagnosticados com microlitíase tinham tumores de células germinativas intratesticulares após investigação mais profunda. Janzen et  al 13 e Patel et al 25 relataram que 2 (18%) de 11 pacientes e 3 (75%) de 4 pacientes apresentaram tumores de células germinativas associados à microlitíase.

Contudo, o intervalo de tempo entre o diagnóstico de microlitíase testicular e o surgimento de doença neoplásica é muito variável, sendo descritos intervalos de seis meses até dez anos 9. Furness et al 26 descreveu 26 pacientes (idades variando de 6 meses à 21 anos, média de 12 anos) com MT que foram acompanhados durante 7 anos. Durante esse tempo nenhum câncer testicular foi desenvolvido. Bieger et al 27 relatou o caso de uma criança com microlitíase testicular que evoluiu para câncer após 6 anos de diagnóstico.

Assim, devido a falta de dados concretos a relação MT e patologia tumoral pode ser uma situação predisponente sendo necessário vigilância clínica, autoexame, ultrassonografia periódica e dosagem de marcadores séricos tumorais testiculares 28.

Conclusão

A microlitíase testicular (MT) embora seja uma entidade relativamente rara se faz importante por ter associação com outras patologias, entre elas destaca-se o tumor maligno de testículo.

Embora seja discutida pela literatura médica ainda não existem dados concretos para caracterizarmos relação de causa e efeito entre microlitíase testicular e câncer. Porém, tal associação torna-se necessária a conduta de vigilância clínica, que é feita através do exame físico e ultrassonografia escrotal anualmente.

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Autor correspondente

Maurício Hachul - hachul.maurico@uol.com.br

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