Nova droga impede formação de proteína que causa alzheimer
Publicada em 26 de Janeiro de 2018

Reinaldo José Lopes
Colaboração para Folha

Uma droga experimental se mostrou capaz de impedir a formação de uma proteína tóxica no cérebro humano, minimizando significativamente uma das principais causas do mal de Alzheimer.

O sucesso inicial, com um grupo de 32 pacientes que sofrem da doença degenerativa, levou os cientistas a testá-la em 2.000 pessoas. Se funcionar, a substância poderá chegar ao mercado.

Os resultados foram descritos na revista “Science Translational Medicine” por uma equipe ligada ao Departamento de Neurociência da empresa farmacêutica Merck.

O estudo é importante porque ninguém ainda havia achado um meio seguro de interferir na formação da proteína beta-amiloide.

Ela forma grandes placas no cérebro de quem sofre de alzheimer e leva à mortandade em massa dos neurônios (o que explica a perda de memória e outros sintomas).

A equipe do bioquímico Matthew Kennedy partiu do princípio que era preciso interferir na “linha de montagem” da beta-amiloide.

Acredita-se que um dos processos que desencadeiam o mal de Alzheimer seja a produção exagerada ou a falta de degradação (a “reciclagem” natural do organismo) da molécula.

Isso indicaria que, nas pessoas com a doença, acontece algo errado quando o organismo está produzindo a beta-amiloide a partir de uma molécula que funciona como matéria-prima dela –a APP (veja infográfico).

Uma ideia óbvia seria interferir numa das tesouras moleculares que cortam a APP e produzem a beta-amiloide. Se a tesoura não corta direito, a quantidade de beta-amiloide diminui.

Na prática, achar uma substância que realizasse esse papel com eficácia e poucos efeitos colaterais não foi brincadeira. Após achar uma molécula com essa capacidade, mas não muito eficiente, os cientistas passaram a modificá-la em laboratório, até chegar à nova droga que está em teste: a verubecestate.

As características bioquímicas do verubecestate permitem que ele seja ministrado aos pacientes por via oral uma vez ao dia, um cenário considerado ideal para que o tratamento seja seguido com facilidade pelas pessoas.

Após testes em camundongos, ratos e macacos que mostraram boa capacidade de impedir a formação da beta-amiloide, houve ensaios com pessoas saudáveis e, finalmente, com o grupo de 32 doentes com alzheimer.

Essas pessoas, que sofrem de formas da doença que vão da versão suave à moderada, receberam diferentes doses do medicamento por 14 dias.

O efeito teve relação direta com a dose (quanto maior a dose, menor a presença de beta-amiloide no organismo dos doentes), com uma diminuição média da substância entre 60% e 80%.

Houve poucos efeitos colaterais. Um dos pacientes precisou deixar o estudo após sofrer um caso sério de urticária e as doses mais altas (acima de 300 mg) foram relacionadas a alterações sutis no ritmo do coração.

Detalhes e Desafios

Embora pareçam muito promissores, os resultados ainda estão longe de significar uma solução simples para a doença degenerativa.

Agora os pesquisadores têm que mostrar que o uso do verubecestate é seguro e traz poucos efeitos colaterais a longo prazo. A equipe de cientistas também tem de comprovar que o medicamento experimental melhora o raciocínio, a memória e o comportamento dos doentes, ou pelo menos impede que eles continuem a se deteriorar.

É provável que isso dependa do estágio da enfermidade de cada paciente. Em casos mais avançados, talvez haja tantas placas de beta-amiloide “consolidadas” no cérebro que um mecanismo que impeça a formação de novos agregados da molécula tóxica não terá um efeito positivo que faça alguma diferença para o doente.

Além disso, o mal de Alzheimer também se caracteriza pela formação de agregados malformados de outra molécula, a proteína tau (nesse caso, dentro dos neurônios, e não fora deles).

O peso relativo das duas proteínas (a beta-amiloide e a tau) na mortandade de neurônios das pessoas ainda não está claro, mas é possível que o cérebro continue a sofrer danos mesmo com a formação de agregados de beta-amiloide sob controle.

A complexidade da doença, portanto, indica que é preciso ter cautela, apesar dos novos dados animadores.