Carvedilol do Baldacci ajuda a prevenir agressão ao coração em pacientes submetidos a quimioterapia, avalia estudo do InCor
Publicada em 28 de Maio de 2018

Estudo clínico promovido pelo Instituto do Coração – InCor, por oito anos, utilizando o medicamento Divelol (carvedilol), dos Laboratórios Baldacci, revelou significativos resultados na prevenção de agressão ao coração em pacientes submetidas a tratamento quimioterápico para câncer de mama. O estudo, que acaba de ser publicado na Journal of American College Cardiology (JACC) principal revista de cardiologia mundial, teve como a primeira autora a Dra. Mônica Samuel Ávila, Médica Assistente do Núcleo de Transplantes do Instituto do Coração (InCor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Pós-Graduanda do Departamento de Insuficiência Cardíaca do InCor. Outros dois renomados médicos, também do Instituto do Coração, participaram da Coordenação do Estudo: Dr. Edimar Alcides Bocchi, Coordenador do Núcleo de Insuficiência Cardíaca do Instituto do Coração (InCor) e Dra. Silvia Moreira Ayub-Ferreira, Médica Assistente do Núcleo de Insuficiência Cardíaca do Instituto do Coração (InCor). De acordo com o Dr. Edimar, a razão do estudo foi a observação de que muitas pacientes com câncer apresentavam Insuficiência Cardíaca devido ao efeito de drogas quimioterápicas. Em busca da prevenção desse grave problema foi criado um modelo de cooperação entre a unidade de Insuficiência Cardíaca do Incor e os Laboratórios Baldacci.  Segundo Kelson Rodrigues, Gerente de Produtos da Linha Cardio do Baldacci, o projeto foi financiado pela FAPESP: o Baldacci doou o medicamento e o placebo, sem qualquer participação financeira, seja no estudo, no desenho ou nos resultados.

Segundo a Dra. Silvia, a preocupação com a cardiotoxidade, isto é, os efeitos colaterais das drogas químicas sobre o coração, começou a chamar a atenção dos médicos por volta de 2010. A preocupação é que esses efeitos e lesões possam abreviar a sobrevida esperada após o tratamento do câncer. Foram testadas várias medicações preventivas, entre as quais o Carvedilol, que além de ser um betabloqueador com efeitos antioxidantes, remove os radicais livres e se encaixa com o efeito e mecanismo de ação da própria Antraciclina, uma das principais medicações quimioterápicas utilizadas em câncer de mama. A escolha do Carvedilol também considerou o fato de que já existia um pequeno estudo aberto, com 50 pacientes, apresentando indícios de que realmente reduzia o efeito de cardiotoxidade.

Foi realizado então um estudo prospectivo duplo-cego randomizado versus placebo, depois de selecionadas 200 mulheres com câncer de mama e que não apresentavam qualquer cardiopatia ao tratamento. “Avaliamos mais de mil pacientes para selecionar as 200 participantes, pois queríamos que elas tivessem um perfil o mais homogêneo possível”, ressalta a médica. Ao final do estudo, 14% do total de pacientes submetidas ao Carvedilol apresentaram dilatação cardíaca.  Historicamente, sem o preventivo cardíaco, esse tipo de paciente apresenta uma perspectiva de 20% a 25% de lesão cardíaca, conforme a dose do quimioterápico.  A principal conclusão do estudo foi que o Carvedilol preveniu a lesão miocárdica – ou seja, as pacientes que tomaram o medicamento apresentaram um pico de troponina inferior em relação às demais. Como explica o Dr. Edimar, a troponina é o mesmo marcador liberado quando o indivíduo tem um infarto. “Existe uma agressão da célula, esta se rompe e libera a troponina durante o infarto. O medicamento evitou a liberação da troponina, sinalizando o seu efeito protetor”.

Entre os fatores para que o Carvedilol mostre esse efeito protetor, dizem os Coordenadores do estudo, vale lembrar que além do efeito de anti-radicais livres, alguns trabalhos recentes apontam que o medicamento atua na lesão por Antraciclina no DNA, com a função de não degradar a mitocôndria. Os médicos Coordenadores da Pesquisa acreditam que um dos benefícios do estudo será promover uma maior interação entre Cardiologistas e Oncologistas. “Estes pacientes têm de ser atendidos por uma equipe multiespecializada, que interaja no tratamento global dos pacientes,” ressalta a Dra. Silvia.  O trabalho em si ainda não terminou;  foi feita uma avaliação precoce de 6 meses e outra será efetuada em um ano e mais uma em dois anos. “Até meados do próximo ano deveremos ter os resultados dessa análise posterior. A intenção é continuar na mesma linha de pesquisa, talvez com pacientes de maior risco de cardiotoxidade e verificar se o Carvedilol tem efeito protetor também nesse grupo”, complementa a especialista.